Porquê gosto de animes 1: a morte de deus

Quem já parou para assistir algum anime, tanto os mais conhecidos como Dragon Ball ou Cavaleiros do Zodíaco, quanto o que nunca chegaram à nossa televisão, provavelmente percebeu que não apenas a arte difere em muito de desenhos ocidentais mas, principalmente a estrutura narrativa. Algumas coisas são mais evidentes: sangue, o tipo de violência, histórias que possuem uma progressão clara, personagens andróginos, lutas que duram dezenas de episódios e assim por diante. O que me atrai no anime é justamente o que o distancia de todos os cartoons e animação ocidental em geral, mas que não se resume às características citadas. O que gostaria de fazer nesse post – o primeiro de uma série – é destacar algumas características, temas, situações e detalhes que fazem com que o anime seja, para mim, uma mídia única, e que se encontra no mesmo nível que qualquer outra forma de arte reconhecida, como o cinema. Talvez a melhor forma de tratar disso seja abordando o problema da morte de deus.

A série Armored Trooper VOTOMS [Soukou Kihei VOTOMS], lançada em 1982, com 52 episódios, é uma das primeiras séries com robôs realistas, gênero que teve início em 1979 com Mobile Suit Gundam. Até então existiam os super robôs, máquinas únicas, com poderes incríveis, que a cada semana aniquilivam algum monstro gigante vindo do espaço. Com Gundam os robôs transformam-se em armas de guerra, produzidos em massa tal como tanques e outros veículos militares (apesar de que a série ainda conservava alguns elementos de super robôs, tal como o próprio Gundam). Tais robôs serão chamado de “mechas”, ou mais especificamente VOTOM nesta série. Armored Trooper VOTOMS segue essa linha, acontecendo ao final de uma que durou mais de um século entre a Confederação Gilgamesh e a União Balarant, na galáxia Astragius.

ATM-09-ST Scopedog, módelo clássico de VOTOM

ATM-09-ST Scopedog, VOTOM modelo padrão

(Seguem SPOILERS, caso alguém esteja interessado em uma série de 30 anos atrás).

Chirico, o protagonista, é um solado de Gilgamesh, participa sem saber de uma missão que é voltada contra a sua própria nação, o que leva a ser considerado um traidor. No decorrer da série será perseguido por sua suposta traição, enquanto tenta descobrir o que realmente aconteceu, o que a leva a Fyana, o protótipo de um novo tipo de super-soldado e que se tornará seu interesse amoroso. Contudo, Chirico passará a ser perseguido porque é o detentor de um poder que o coloca no mesmo nível de um super-soldado como Fyana, e que tem relação com sua participação como soldado da unidade especial “Red Shoulder”, que antecede o início da série. Esse tema é desenvolvido especialmente nos OVAs, mas Chirico tem um grande poder de regeneração, sendo praticamente imortal, além de todas as suas habilidades físicas e de combate.

Chirico

Chirico

No arco final da série coisas estranhas começam a acontecer. Personagens, naves, veículos e frotas inteiras são teletransportados por distâncias interestelares, pelas razões mais diversas. Logo fica claro que por trás da guerra entre os dois impérios, e dos principais acontecimentos da galáxia, há uma força maior agindo. Tudo aponta para ao planeta Quent, que possui ruínas milenares. Além de seus habitantes locais o planeta é o lar de Wiseman, um supercomputador milenar que contém consciência coletiva de Overmen, homens super-evoluídos que foram exilados pelos antigos habitantes do planeta. Por mais de três mil anos Wiseman controlou tudo o que acontecia na galáxia, na busca de um novo Overman que pudesse utilizar seus poderes divinos para comandar a galáxia. Eis que Chirico seria esse último Overman, tendo sido criado pelo próprio Wiseman, sendo de certa forma filho de Deus.

No clímax da série, quando Gilgamesh e Balarant uniram forças para destruir Chirico e Wiseman, reunindo uma massiva frota na órbita de Quent, o deus-computador é confrontado pelo solado imortal, que havia aceito tomar seu lugar, abandonando e sacrificando Fyana e seus amigos. Chirico o faz, contudo, como forma de ter acesso físico a Wiseman, que destrói desligando e desconectando sues bancos de dados centrais, efetivamente matando deus. Ou mais precisamente, o filho de Deus mata o seu pai e criador, garantindo à galáxia e a seus habitantes uma liberdade que não experimentaram por mais de três mil anos. A série termina com Chirico e Fyana sendo lançados no espaço em uma cápsula de preservação criogênica. Enquanto os dois existissem seriam sempre perseguidos para serem utilizados como armas de guerra, então o seu desaparecimento sria a única solução.

O tema da morte de deus aparece na mídia japonesa em grandes nomes como Evangelion, Lain ou Xenogears. O surpreendente aqui é encontrar essa mesma problemática em um anime de mechas do início dos anos 80, voltado primeiramente para crianças e a venda de miniaturas de robôs. Essa é um dos motivos pelos quais eu gosto de animes. Eis um herói trágico, atormentado por uma passado que desconhece, descendente de uma maldição cuja origem é divina e envolto em um destino ao qual não pode escapar. Ainda que mate deus, Chirico não pode encontrar lugar no mundo.

Quando Nietzsche anuncia a morte de deus na Gaia Ciência, o faz com um misto de exaltação e lamentação. Exaltação porque, finalmente, nos encontramos livres dessa prisão absoluta e transcendente que era o deus cristão, por mais que sua sombra ainda venha a perdurar, o que abriria o caminho para a criação de novos deuses e valores. Lamentação, no entanto, porque em seu lugar colocamos o Homem e seu Progresso, essa figura tão pequena e medíocre comparada a esse gigante admirável que foi o deus judaico-cristão. O super-homem, tal como aparece em Assim Falou Zaratustra, virá após o “último homem”, esse homem que inventou a felicidade, criatura satisfeita consigo mesma. O super-homem, ou “além do homem”, Overman, é quem ainda conserva o caso criativo, que é capaz de cria novos valores e virtudes, que pode efetivamente ultrapassar a moral e a potência do homem, do último homem que restou após a morte de deus. Chirico literalmente matou deus, ultrapassando valores e forças, existindo, então, como um super-homem prematuro, que deve esperar a hora do último homem, nessa solidão estelar que nenhum outro homem conheceu, tanto para evitar se tornar um novo deus (já que em OVAs posteriores ao fim da série é mostrado que foi criado todo um culto que o coloca como novo deus), quanto para encontrar aqueles que sejam seus iguais.

Encontrar pequenas pérolas como essas me fazem gostar tanto de animes, especialmente quando são encontradas em locais tão inusitados. Nos próximos posts desta série pretendo explorar mais estes interstícios fascinantes dos animes.